Inundação em Curitiba atinge storage onde está o acervo da Fonoteca da Música Paranaense e reforça alerta sobre preservação da memória cultural
A tempestade que atingiu Curitiba, na última terça-feira (03/02/2026), provocou alagamentos em diversas regiões da cidade teve reflexos diretos sobre o patrimônio cultural do Paraná. O storage que abriga a maior parte do acervo físico da Fonoteca da Música Paranaense, localizado na região da Marechal Floriano Peixoto, foi inundado, gerando apreensão entre pesquisadores, músicos e instituições ligadas à preservação da memória musical do Estado.
A Fonoteca, instituída como associação há pouco mais de um ano, é guardiã de um acervo de 400 mil itens doado pelo cientista político e pesquisador Manoel de Souza Neto à associação e, por extensão, ao povo do Paraná. O conjunto reúne décadas de documentação sobre a música paranaense, incluindo LPs, fitas VHS raras, registros sonoros e audiovisuais, documentos, cartazes e materiais que fundamentaram mais de 250 pesquisas acadêmicas e o livro “A [des]Construção da Música Paranaense”, referência nacional no campo dos estudos culturais.
Presidente da Fonoteca, o artista e divulgador da cena local Rodrigo Amaral relatou o momento em que recebeu o alerta. “Hoje, 04/02/2026, o impensável aconteceu. Após uma tempestade histórica que alagou Curitiba, nosso jurídico recebeu um alerta urgente: o storage que guarda o acervo físico da Fonoteca inundou”, escreveu em carta dirigida à comunidade cultural.
Segundo Amaral, o primeiro contato foi com o próprio Manoel de Souza Neto. “Preciso da sua ajuda agora. Temos que ver o que sobrou. Não sabemos o tamanho da perda”, relatou. Ao chegarem ao local, encontraram um cenário de lama e água acumulada. Apesar da violência da inundação, a avaliação inicial indica que a maior parte do acervo não foi atingida, o que trouxe alívio diante do risco iminente de perdas irreparáveis.
Apesar da gravidade do episódio, a avaliação inicial trouxe alívio. “Por um verdadeiro milagre, ou por um desnível do piso, a grande maioria das caixas, LPs, fitas e documentos não foi atingida diretamente pela água”, afirma Amaral. No entanto, ele alerta que o risco permanece. “A umidade intensa e os fungos são uma ameaça silenciosa e igualmente perigosa. No médio prazo, podem deteriorar e condenar todo o acervo se não agirmos com velocidade e técnica.”
Apesar da maior parte do acervo não ter sido atingida pela calamidade, algumas dezenas de itens tiveram contato direto com a água da inundação . Itens como fitas VHS, DVDs e discos de vinil (muitos deles raríssimos) foram danificados, o que pode comprometer uma parcela significativa da memória musical do estado do Paraná.
O episódio também marcou uma mudança de perspectiva. “Sempre pensei nesse acervo de forma um pouco abstrata. A história já estava viva nos palcos, gravações e memórias”, escreve Amaral, lembrando que o foco recente estava nas parcerias institucionais, como a colaboração com a Universidade Estadual do Paraná (Unespar) e o Grupo de Trabalho Musics, coordenado pelo professor **André Egg, voltada a dar vida acadêmica e nova circulação ao material.
“O susto, porém, foi profundo”, afirma Amaral. “Hoje senti na pele o peso da materialidade da história" e continua "São registros de amigos com quem toquei, de festivais dos quais participei, fitas únicas que podem se perder para sempre se não agirmos agora.”
A Fonoteca ressalta que não atribui culpa diretamente à empresa responsável pelo storage, às instituições parceiras, falhas de colaboradores ou à própria natureza. Para Amaral, o problema é estrutural. “É o descaso crônico com a nossa própria memória coletiva. Nosso trabalho vai além da resistência cultural. É uma sobrevivência contra o esquecimento, contra a indiferença que deixa nossa história vulnerável à umidade, ao tempo e ao apagão.”
Diante do ocorrido, a entidade já iniciou articulações para uma resposta emergencial, que inclui: avaliação técnica dos danos com especialistas em restauro, ações imediatas de estabilização e desumidificação do acervo e mobilização de recursos para a criação de um espaço definitivo, seguro, climatizado e acessível ao público.
Mais do que um resgate emergencial, a Fonoteca aponta para o futuro. “Preservar esse acervo é dar futuro ao nosso passado. Deste material podem nascer novos estudos, livros, documentários, exposições interativas e ações educativas que contarão a trajetória da música paranaense para o Brasil e o mundo”, afirma o presidente.
Ao final, a Fonoteca da Música Paranaense conclama a sociedade (músicos, produtores, pesquisadores, jornalistas, estudantes, gestores públicos e cidadãos) a se unir em defesa da memória musical do Estado. “Essa não é uma luta individual. É coletiva, de todos que acreditam que a música e a cultura paranaense merecem existir para além dos palcos. O Paraná tem vozes e acordes que merecem ser cuidados, preservados e ouvidos hoje e sempre.”
Instagram:
@fonotecadamusicaparanaense

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