terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Hang the Fake Dj



Matéria publicada na edição #11 de Curitiba Deluxe. Você pode ver como ficou a diagramação da revista em http://issuu.com/deluxe/docs/011

Efeito colateral da tecnologia e da moda, o desejo de ser DJ faz com que muita gente resolva pilotar uma pickup, mesmo sem ter o mínimo de conhecimento. Que tipo de impacto essas investidas têm sobre a música eletrônica? Saiba o que dizem os experts - e como os “aspirantes” se defendem das críticas.

Diogo Dreyer


Na gíria da noite, Peter Hook – a.k.a. “Hooky” – é um “tiozinho”. Do alto de seus 56 anos, esse inglês de Manchester gosta de ser visto freqüentando festas e clubes mundo afora. Há cerca de três anos, botou na cabeça que se tornaria DJ. Afinal, comandar a cabine sempre ajuda na hora de puxar papo com as mulheres. Já dono de uma invejável coleção de discos, comprou um bom par de fones de ouvido e saiu discotecando.

A princípio, não cobrava cachê. Aparecia à frente das pickups a convite de amigos. Mas acabou tão requisitado que seu currículo já conta com apresentações em diversos eventos e clubes no mundo todo. No Brasil, fez parte da escalação do Festival Motomix, em 2006. O curioso é que, quem o viu em ação como DJ, garante: Hooky não faz idéia do que seja mixagem. Seus sets são a verdadeira definição de “tosco”. Os fones, sempre longe do ouvido, poucas vezes são usados para algo diferente do que ornamentar o pescoço do inglês. O repertório, permeado por sucessos roqueiros dos anos 80 e 90, misturados a faixas eletrônicas (preferencialmente algum hit do Underworld), parece propositalmente mal escolhido e - ainda mais grave na visão dos puristas - pessimamente executado. Acabou uma música, o tiozinho aperta o play para começar a próxima, sem preocupação alguma em acertar a equalização. Tentar mixar uma faixa à outra? Hooky prefere tomar uma cerveja.

Mas por que então as pessoas pagam para vê-lo discotecar? A razão é que, caso você não tenha ligado o nome à pessoa, Peter Hook fez história na música. Foi baixista e fundador das bandas Joy Division e New Order. Foi um dos donos do lendário clube Haçienda, em Manchester, berço do acid house. De certa forma, a música eletrônica tem uma dívida para com ele. E ele resolveu cobrar. “Se uso meu nome para abrir portas? Claro! Quem não faz isso? Eu sei que muita gente vai me ver tocar apenas para ouvir Blue Monday. E na real, não me importo com isso”, contou o músico em entrevista por e-mail à Curitiba Deluxe.

Hooky, ao menos, não esconde que sua faceta DJ não passa de “malandragem”. “Pelo meu repertório, não há necessidade de me dedicar a aulas e aprender a mixar da forma mais aprofundada. Mesmo assim, ser DJ me devolveu o amor à música e deu razões para procurar bandas e produtores fora da área musical em que atuo normalmente”, explica-se.

Essa “honestidade” toda, claro, divide os DJs mais tradicionais. “As pessoas vão numa gig dele para ver o personagem. Não dá pra levar a sério, nem no sentido de ficar ‘indignado’. Mas acho que ele não vai conseguir ganhar a vida assim por muito tempo”, avalia o DJ, produtor e jornalista paulistano Camilo Rocha.

Já Raul Aguilera – que comanda pickups em Curitiba antes mesmo de o termo disc jockey significar alguma coisa por aqui – faz uma análise mais ácida da postura do ex-New Order e de seus fãs. “O Peter Hook tocar não é algo ruim. Péssimo é o fato dele tocar um set pré-gravado, fazer um teatrinho com isso e ainda cobrar [provavelmente] uma fortuna por isso. Mas quem paga para ver um set desses está merecendo”, atira.

Hooky sabe que brincar no quintal de outros DJs de forma tão prosaica suscita comentários, no mínimo, controversos. Mas não parece inclinado a abrir mão das vantagens que a posição lhe concede. “Gosto do desafio, da aventura e de ir parar em lugares no mundo bem excitantes por conta de ser DJ. Sou grato por ter gente que me deixa tocar e me divertir ao mesmo tempo. E, se isso acontece, certamente é porque tem muita gente que se diverte com meus sets.”

Invasão das celebridades - No Brasil, diversos músicos com seguidores fiéis também enveredaram pelo caminho da discotecagem. É o caso do apresentador da MTV João Gordo, que apesar de ter aparecido para o mundo gritando letras punks à frente do Ratos do Porão, faz boas apresentações comandando as pickups. Contudo, o cantor parece ser uma exceção. A versão tupiniquim do “celebDJ” é bem mais cruel com os ouvidos alheios: a lista de “celebridades” que animam festas do jet set vai de ex-Big Brothers, como a curitibana Analy, passa por atores do momento, como Bruno Gagliasso, e chega aos mais insuspeitos disc jockeys, como o ex-piloto de Fórmula 1, Raul Boesel.

“Minha concentração é com a música. Encaro esta nova profissão com o mesmo entusiasmo e profissionalismo que dediquei à minha carreira de piloto”, diz Boesel, que apostou na nova ocupação fazendo cursos e se debruçando sobre a produção de outros DJs (já a BBB Analy, por exemplo, talvez por estar “emocionada”, não conseguiu fazer nem uma mixagem básica ao lado de Fatboy Slim na edição número sete do programa).

Gabriel Rossato, dono da agência Play, argumenta que o desejo de comandar as pickups, mesmo para quem já é celebridade, tornou-se uma forma a mais de conseguir destaque. “Alguns artistas ou socialites fazem isso porque o mercado exige deles algo diferente, para poderem se destacar uns dos outros. Mas minha opinião, todos querem é ser a mesma coisa: um ‘DJ celebridade’, como o Tiesto, o Carl Cox, o Sven Vath...”, enumera. De qualquer forma, Rossato afirma que não vê problemas em agenciar um celebDJ. “Desde que sejam profissionais e saibam o que estão fazendo, não há problemas. O que não pode é virar chacota”, diz.

E, ao contrário do que possa parecer, para o DJ Camilo Rocha essa invasão não desprestigia a profissão. “Às vezes, isso até valoriza o DJ de verdade. Já viu quando um zé celebridade está acabando com a pista e, na seqüência, entra alguém que sabe fazer?”, aponta. “E não se pode generalizar com os celebDJs. Tem caras como o Leo Madeira que são realmente bons na discotecagem. Infelizmente, para cada caso desses, existem uns dez Brunos Gagliassos pagando mico”, pondera.

DJs de fim de semana - Tampouco é justo afirmar que a moda de querer comandar as músicas nas festas se restrinja às celebridades. Há um bom par de anos o povo que antes se contentava com a pista de dança enxergou, na cabine do DJ, um posto a ser almejado. “A profissão é muito atraente: imagine ganhar dinheiro enquanto está na balada, ainda sendo o centro das atenções?”, analisa Camilo.

Além disso, a mistura do rock com eletrônica e o acesso fácil e barato às novas tecnologias ajudam quem quer animar um evento, nem que seja apenas nos fins de semana. “Existem casos de festas mais informais onde o diferencial é pegar pessoas que não são DJs para colocarem o seu conhecimento musical à prova. A discotecagem está se tornando uma nova forma de expressão cultural”, aponta Raul Aguilera. “E nessa cultura, a figura do ‘guitar hero’ foi substituida, em parte, pela figura do ‘DJ hero’”, completa.

Para Gabriel Rossato, a profissão, além de ter se tornado rentável, rende ainda projeção de mídia e gera status. “Eu sou do tempo em que a gíria DJ nem existia. Era disc jockey ou discotecário, e naquela época era feio você fazer isso da vida. Mas hoje, todos dizem ser um DJ ou querem ser ‘passadores de música’”, pondera.

Cursos x autodidatas - Outro tema pantanoso nessa relação entre DJs e aspirantes se dá por conta da necessidade ou não de se fazer um curso para aprender as técnicas de mixagem e afins. Mas por mais relevante que seja o domínio desses quesitos, vale lembrar que, até poucos anos, cursos como esses eram raros e caros, e muitos DJs que hoje freqüentam os charts de preferência popular são autodidatas ou aprenderam a tocar com amigos. Normalmente, antes de se tornarem DJs, eles eram produtores de música eletrônica, o que naturalmente os credenciava a operar o mixer. Porém, a popularização da eletrônica fez com que, no Brasil, pipocassem nos últimos anos escolas com promessas de transformar, rapidamente, alunos em mestres na pilotagem de pickups.

A questão, então, volta-se para a velocidade com que uma pessoa consegue aprender a técnica e quão rapidamente pode clamar para si o título de DJ. “Fazer um curso é bom, mas não é imprescindível. Pode ser bom para cortar caminho e economizar tempo, aprendendo manhas”, diz Camilo Rocha. Mas ele lembra que isso não é o que faz um DJ de verdade. Peter Hook, por exemplo, possuiu o quesito fundamental para saber comandar uma pista de dança: a bagagem musical. “Acima de tudo, antes de desenvolver técnica e repertório, um DJ deve ter como essência paixão por música e a vontade de compartilhar isso com os outros. O resto vem com o tempo”, completa Camilo.

Para Raul Aguilera, que também é professor na Academia Internacional de Música Eletrônica de Curitiba (Aimec), a técnica pode ser adquirida rapidamente através de um curso, mas um verdadeiro DJ precisa percorrer um caminho mais longo. “O domínio e o conhecimento das técnicas são importantes. Mas para um aspirante a DJ é imprescindível ainda o intercâmbio do conhecimento com os instrutores e, sobretudo, o desenvolvimento de uma boa cultura musical.”

Opinião parecida tem Loo Massami, que aos 24 anos desponta com um dos mais promissores DJs da cena curitibana. Massami foi um dos que escolheu fazer um curso, mas afirma que isso, por si só, não faz de ninguém um disc jockey de primeira linha. “Tocar bem é essencial, mas ter um bom repertório é o diferencial. A técnica está relacionada com a prática constante. Já o repertório, que é a ‘identidade musical’ do DJ, está relacionado com a sua bagagem, bom gosto e bom senso”, diz.

Regulamentar ou não - O toque surreal diante desse panorama todo foi dado pelo deputado federal Brizola Neto (PDT-RJ), que apresentou ao Congresso, ano passado, o Projeto de Lei 2631/07, que visava regulamentar a profissão dos disc jockeys e video jockeys (VJ). Pela proposta, só poderiam exercer essas atividades profissionais habilitados por cursos profissionalizantes oficialmente reconhecidos. Em outubro último, porém, a proposta não foi aprovada pela Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público da Câmara.

Pudera. A necessidade de regulamentação da atividade nem mesmo é unânime entre os DJs. “Esse pessoal que está mobilizando a regularização da profissão quer, na verdade, ajudar aqueles DJs que trabalham todos na mesma casa noturna, o ‘peão’ da cabine de som, que vive apenas disso e hoje realmente não tem nada que o proteja legalmente”, analisa Camilo Rocha, que teme que exigências como curso obrigatório para a profissão possam engessar todo o setor mais artístico, criativo e freelance da área.

Loo Massami também critica o projeto do deputado Brizola Neto. “Caso a regulamentação ocorresse do jeito que estava prevista, atrapalharia os acordos – na maioria informais - entre DJs e promoters. Esta lei não está inserida na realidade da noite”, diz.

Já Raul Aguilera acredita que, devido ao crescimento da classe, a regulamentação da profissão é uma necessidade. “Mas vai levar um bom tempo até as coisas entrarem nos trilhos. Porém, acredito que muita coisa tem que ser revista nesse projeto. Um sindicato, por exemplo, ajudaria, e muito, a organizar a classe.”

3 comentários:

141b disse...

Parabéns pela matéria. Muito bem escrita. Sucesso aê!

rg disse...

Ótima matéria!
Parabens!

Rafael Gorski disse...

Muito boas colocações!
O fundamental é que todos se divirtam na pista mesmo que seja ao som de um set pre-definido.
O que vemos hoje na maioria dos lugares são DJs que não ter repertório e tocam a mesma coisa sempre... mixagem são bacanas mas quando se quer escutar um bom som ai muito DJ vai pro armario e muitos clubs fecham!